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Relembrando Pol Pot e o genocídio cambojano

Relembrando Pol Pot e o genocídio cambojano

Pol Pot, cujo verdadeiro nome era Saloth Sar, foi um ditador cambojano, que governou o seu país através de um cruel, opressivo e agressivo regime totalitário, através do poder que consolidou como líder de um partido conhecido como Khmer Vermelho. Apesar da efemeridade do seu regime – governou por apenas quatro anos, de 1975 a 1979, até ser deposto – especula-se que o Khmer Vermelho tenha dizimado um quarto da população cambojana. De diversas maneiras, o Camboja – que sob o governo de Pol Pot passara a chamar-se Kampuchea Democrática – viu sua população ser brutalmente exterminada através de violência direta, campanhas de extermínio, desnutrição e fome, condições precárias de vida, deslocamentos em massa, trabalho forçado, pestilências e enfermidades.

Nascido a 19 de maio de 1925, quando o Camboja era uma colônia francesa, na idade adulta Saloth Sar interessou-se muito por história e política, e, como a grande maioria dos seus conterrâneos, via com maus olhos o inequívoco fato de sua nação ser governada por um poder estrangeiro, que infligia diversas restrições à sua população nativa. Com uma história rica, que, não obstante, ressentia-se da dominação de grandes impérios e de potências invasoras por sucessivos períodos, o sonho de um Camboja livre, genuíno e autêntico, do povo, para o povo e pelo povo, logo insuflou o espírito de Saloth Sar, bem como muitos de seus correligionários. E isto não era um sonho novo, ou exclusivo de sua geração, mas um ideal alimentado há inúmeras gerações, que aparentemente foram incapazes de consolidar a liberdade da nação.

Ao estudar na França e entrar em contato com o comunismo, além de conhecer intelectuais que partilhavam de suas ideias, Saloth Sar ficou convencido de que esta era a melhor maneira de levar um ideal de prosperidade à sociedade cambojana. Ao regressar ao Camboja, um partido comunista foi formado em segredo, e Saloth Sar rapidamente ascendeu em seu escalão. Em 1970, o príncipe Norodom Sihanouk foi deposto por um golpe militar, conduzido pelo então general Lon Nol, que pavimentou o caminho para consolidar a República Khmer, até este ser deposto em 1975 por Pol Pot.

Pol Pot tinha uma visão extrema de reconstrução social baseada nos históricos e tradicionais moldes agrários cambojanos, vendo toda e qualquer influência do ocidente como sendo essencialmente maléfica, e nociva para o resgate fundamental das tradições cambojanas, que ele pretendia introduzir. Com a intenção de acabar com as cidades e suplantar os centros urbanos do país, Pol Pot, através de agressivas campanhas de deslocamento populacional, forçou todos os habitantes das cidades a serem realocados para zonas rurais, com a finalidade de trabalharem em campos coletivos de produção agrária.

A partir deste momento, atrocidades seriam perpetradas de forma indiscriminada, com a finalidade de suplantar toda e qualquer oposição ao seu regime. O Khmer Vermelho passou a ser o líder inconteste do Camboja, reinando de forma suprema e incondicional, a serviço do totalitarismo, da crueldade e do terror.

Não obstante – embora seja impossível saber com exatidão – muitos outros fatores contribuíram para aumentar exponencialmente a mortandade entre os cambojanos. As condições precárias existentes nos campos de trabalho forçado, as longas jornadas de trabalho – que deixavam os indivíduos suscetíveis à fadiga, exaustão e extenuação – e a péssima alimentação foram preponderantes para o extermínio de boa parte da população. Em função da total supressão de tudo aquilo que era ocidental, ou assim considerado, inclusive tudo o que estivesse relacionado à medicina – como clínicas, hospitais, medicamentos, remédios e produtos farmacêuticos em geral – um enorme número de pessoas padeceu em virtude de inúmeras doenças e enfermidades, de todos os tipos: infecciosas, congênitas e transmissíveis.

Assim como a vizinha Tailândia, no entanto, o Camboja sempre foi um país conhecido por suas instabilidades políticas, marcadas por governos efêmeros e transitórios. Assim como o governo de Pol Pot instalou-se no poder, ele invariavelmente estava destinado a ruir. Em 1979, quatro anos depois de ter assegurado o controle sobre a nação, o regime de Pol Pot cairia, em função de uma nova insurreição. Uma insurgência deflagrada por dissidentes do Khmer Vermelho, logisticamente apoiados pelos vietnamitas – há muito tempo inimigos dos cambojanos – e com igual suporte dos soviéticos, derrubaram Pol Pot do poder, iniciando uma nova revolução.

Destituído de apoio, e sem melhores perspectivas, Pol Pot fugiu com o seu séquito para o interior, onde governos exilados formaram uma coalizão. Esta coalizão, que ficou conhecida como Coalizão de Governos da Kampuchea Democrática, era formada por três diferentes facções políticas. Uma delas representava o Khmer Vermelho, outra representava a Frente de Liberação Nacional – que se opunha à intervenção vietnamita no país – e a última, mas não menos importante, representava o príncipe Norodom Sihanouk, que fora deposto em 1970, e que voltaria a governar o Camboja, de 1993 a 2004.

Pol Pot continuaria envolvido com o Khmer Vermelho nos anos subsequentes, mas a relevância política do partido se desvaneceria com o passar do tempo, deixando de ter qualquer importância a nível nacional. Durante o sanguinolento regime de Pol Pot, especula-se que o número de vítimas do Khmer Vermelho fique entre um milhão e três milhões de pessoas, sendo dois milhões e duzentos mil considerado o número mais realista. Durante o seu governo, os chamados campos de matança tornaram-se terrivelmente comuns, e o número de sepulturas coletivas por todo o país é estimado em aproximadamente vinte mil.         

Pol Pot nunca foi julgado pelos crimes que cometeu. Viveu uma vida pacata e tranquila, até morrer, em 15 de abril de 1998, aos 72 anos, no interior do Camboja, em local próximo à fronteira da Tailândia.

Artigo originalmente publicado no Jornal A Folha do Sudoeste, periódico bissemanal de Palmas, Paraná, edição de 12 a 15 de novembro de 2016. 

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Sobre Mim

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O Ultraconservador é um reacionário cristão antissocialista, anticomunista, antimarxista e antiestatista. Um indivíduo sem medo do establishment socialdemocrata ditatorial, corrosivo e totalitário. É colaborador de periódicos (jornais e revistas) e portais eletrônicos do Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo.