Blog

Por que a intervenção militar não aconteceu, e nem acontecerá?

Por que a intervenção militar não aconteceu, e nem acontecerá?

Infelizmente, muitas pessoas ainda estão alimentando a ilusão de uma intervenção militar. Acontece que está na hora de acordar da ilusão intervencionista para confrontar a realidade. 

Inúmeros brasileiros alimentam a esperança de uma intervenção constitucional cívico-militar, pois veem nela a única alternativa viável para obliterar e erradicar o establishment político corrupto e tirânico que há muito tempo está assolando o país. Mas, desde o princípio, todos os indivíduos favoráveis a uma intervenção militar nunca avaliaram devidamente seus aspectos práticos, sua viabilidade, e quais seriam as reais possibilidades dela acontecer. Pois bem, a  intervenção militar não vai acontecer, e por diversas razões. Abaixo, cito dez razões pelas quais não devemos acreditar na concretização de uma intervenção militar. 

Em primeiro lugar, é fundamental compreender que não estamos mais na Guerra Fria. Vivemos em um contexto histórico e político completamente diferente. E é necessário enfatizar um elemento da máxima importância aqui — todos os governos na América do Sul que se converteram em regimes militares nos anos 1960 e 1970, como Brasil, Chile, Argentina e Uruguai —, o fizeram por pressão dos Estados Unidos, como uma forma de conter a expansão do comunismo, especialmente em uma época em que Cuba, que havia se transformado basicamente em um estado satélite da União Soviética, estava patrocinando e disseminando revoluções comunistas por toda a América Latina. 


Em segundo lugar — embora seja válido ressaltar que uma pauta deste calibre é benéfica porque demonstra como uma parcela significativa da sociedade brasileira hoje está completamente insatisfeita com o status quo político vigente no país, em razão de ser composto basicamente por um grupo de pessoas que não é representado por absolutamente ninguém dentro da esfera política — não é porque os militares auxiliaram a nação uma vez que eles farão isso de novo. Infelizmente, nós, brasileiros, ficamos mal habituados com o grande auxílio que nos fizeram no passado. Como um general já afirmou, as forças armadas não tem a obrigação de tutelar o país ou a sociedade brasileira. Muitos pensam que, em virtude de quaisquer problemas ou adversidades que por ventura venham a afligir a nação, basta conclamar uma intervenção militar, para que os "heróis fardados" do país possam se insurgir, e, como em um passe de mágica, resolver todas as dificuldades que estão asfixiando o país, para restabelecer a ordem. Só que não é assim que as coisas funcionam. Muito pelo contrário.  

Em terceiro lugar, está mais do que evidente que entre os intervencionistas surgiu o problema da idolatria, que existe de forma contumaz na política, mas acabou contaminando também uma parcela significativa da população simpatizanta de uma intervenção militar. Aqui, enfatizo o hábito de cultivar e difundir virtudes inexistentes entre os militares. Por exemplo, enfatizar que o comandante máximo do exército, Eduardo Villas Boas, ou que o general Hamilton Martins Mourão — que há alguns meses foi para a reserva — assim como muitos outros militares, são indivíduos de estirpe heroica, aguerrida e patriótica. Ainda que estas qualidades, sem dúvida nenhuma, existam em alguns militares, está mais do que na hora de compreender que estamos falando de indivíduos que não passam de pessoas comuns, pessoas que, assim como nós, são de carne e osso. Em absolutamente nada são diferentes de nós, meros mortais. Estes indivíduos não são salvadores ou redentores da pátria; são indivíduos com limitações e fraquezas, assim como todos nós, e estão submissos a toda uma ordem natural de acontecimentos, que não são capazes de articular ou controlar por completo.   

Em quarto lugar, relacionado ao tópico anterior, é necessário enfatizar que o exército brasileiro é uma instituição de estado, e em pouco ou nada difere das demais instituições públicas que existem por todo o território nacional. A verdade, que precisamos encarar com resignação e maturidade, é que se faz necessário compreender que as forças armadas podem ser ou estar tão corrompidas quanto o restante do governo brasileiro. Existem inúmeros indivíduos — inclusive dentro das forças armadas —, que se beneficiam do atual status quo político, dissoluto e corrompido, e não desejam de forma alguma um rompimento institucional, antes o contrário. Pretendem lutar pela sua continuidade. 

Em quinto lugar, é necessário compreender o exército brasileiro por aquilo que ele realmente é: uma instituição de estado. Hoje, os militares brasileiros são basicamente zeladores, secretários e seguranças dos burocratas estatais. E a verdade, dita de forma clara e simples, é que eles não irão se voltar contra os seus patrões — aqueles que pagam os seus salários — para lutar por uma população ingrata, indolente e medíocre, que pretende delegar aos militares o que ela própria deveria estar fazendo. 

Em sexto lugar, é necessário refletir à respeito do seguinte aspecto do exército brasileiro —apesar de ser coeso como instituição, ele é formado por pessoas e indivíduos muito diferentes, que não pensam da mesma forma, e nem se posicionam da mesma maneira com relação a uma série de coisas e principalmente, ao atual estado de caos político e institucional do país. Existem inúmeras divergências entre os próprios militares quanto ao que deveria ou não ser feito com relação ao atual estado de coisas em que o país se encontra. 

Em sétimo lugar, é necessário compreender que o exército brasileiro, como uma instituição rigidamente alicerçada em hierarquia e disciplina, deixa os militares na obrigatoriedade de obedecer ao comando do estado maior do exército. O que este corpo de militares decide, o restante obedecerá. E este órgão está completamente submisso às autoridades civis. 

Em oitavo lugar, é necessário entender que hoje praticamente o mundo inteiro está submisso à cartilha política da Organização das Nações Unidas. Se uma intervenção militar ocorresse, o clamor internacional que se voltaria contra o Brasil seria planetário, e invariavelmente contraproducente. As Nações Unidas, os governos dos países integrantes, e também a mídia e a imprensa internacionais, acusariam os militares de incorrer em um golpe de estado, e de suprimir o estado democrático de direito no país. O Brasil seria obrigado a enfrentar sanções de todo o tipo, e até mesmo uma intervenção militar estrangeira, capitaneada pelas Forças de Manutenção da Paz da ONU. 

Em nono lugar, a verdade é que apenas uma guerra civil poderia, de fato, nos tirar do atual abismo no qual o país se encontra. Mas aí, incorremos em um problema igualmente pernicioso. A verdade é que, na eventualidade da população deflagrar um ataque massivo contra as autoridades governamentais, a polícia, a guarda nacional e as forças armadas seriam convocadas para lutar contra a população, e defender a classe política. Portanto, está mais do que na hora de compreender que todo o aparato repressivo estatal existe com a única e exclusiva finalidade de proteger o governo da população, e não o contrário. As forças armadas não estão aí para atender às demandas e as expectativas da população, mas daqueles que pagam os seus salários. Ou seja, os dirigentes políticos.  

Em décimo e último lugar, porém não menos importante, é fundamental que intervencionistas e brasileiros em geral não se deixem levar por indivíduos e canaizinhos do Youtube que prometem a intervenção militar a todo momento. Infelizmente, estes estão proliferando cada vez mais, e muita gente acredita nas informações falaciosas que transmitem. A verdade é que estes canais 
não passam de vendedores de ilusões fanfarrões, promovidos por demagogos dispostos a falar exatamente aquilo que sabem que a sua audiência cativa deseja ouvir. 

A verdade é que chegou a hora de acordar da ilusão. Não haverá intervenção militar. O que pode ser informado sem nenhum equívoco é que aproximadamente oitenta militares irão se candidatar a cargos públicos nas eleições, entre estes o celebrado general Mourão. Alguns generais estão afirmando que o que ocorrerá na verdade será uma "intervenção branca", ou seja, uma intervenção indireta com militares eleitos democraticamente, para que não dar margem para a esquerda reclamar posteriormente; afinal, ela teria muita munição para reclamar, caso houvesse uma intervenção militar constitucional. 

Não acredito que através de eleições — utilizando o sistema corrompido que aí está — seja possível mudar alguma coisa. Não obstante, ainda é cedo para efetuar qualquer diagnóstico ou fazer uma avalição da situação. A verdade é que não devemos esperar demais do exército, além daquilo que ele pode nos oferecer. E sempre avaliando a profunda complexidade da situação em que nós nos encontramos. 

Compartilhe esse texto:

Sobre Mim

Sobre Mim

O Ultraconservador é um reacionário cristão antissocialista, anticomunista, antimarxista e antiestatista. Um indivíduo sem medo do establishment socialdemocrata ditatorial, corrosivo e totalitário. É colaborador de periódicos (jornais e revistas) e portais eletrônicos do Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo.