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Papa Doc e Baby Doc Duvalier – Ditadores do Haiti

Papa Doc e Baby Doc Duvalier – Ditadores do Haiti

François “Papa Doc” Duvalier (1907-1971) e Jean-Claude “Baby Doc” Duvalier (1951-2014) – pai e filho, respectivamente –, foram ditadores do Haiti. Papa Doc de 1957 a 1971, e Baby Doc de 1971 a 1986.

Papa Doc foi eleito democraticamente presidente do Haiti em 1957, mas depois de sofrer uma tentativa de golpe militar – sufocada com sucesso – Papa Doc tornou-se desesperadamente paranoico. Extremamente desconfiado do exército haitiano, instituição que detinha certo grau de autonomia e independência, Papa Doc, tratou de substituir os oficiais de alta patente por outros, leais a ele. Rapidamente, no entanto, seu regime descarrilhou para o totalitarismo. Durante seu governo despótico, um dos acontecimentos mais excêntricos foi o morticínio de todos os cachorros negros, na parte haitiana da ilha – a ilha de Hispaniola é dividida entre o Haiti, a oeste, e a República Dominica, a leste –, que ocorreu por ordem de Duvalier.

Em 1959, quando sofreu um ataque cardíaco – médico de profissão, Papa Doc sofria, ironicamente, de saúde precária –, o ditador deixou seu secretário de confiança, Clément Barbot, encarregado de todas as questões administrativas do país. Quando restabelecido, ao retomar o ordenamento político da nação, Papa Doc acusou-o de tramar uma conspiração para demovê-lo do poder. Sendo assim, mandou prendê-lo. Ao sair da prisão, possivelmente convencido de que Papa Doc estava sofrendo de insanidade, Barbot decidiu vingar-se, e armou um plano para tentar dissuadir o ditador a renunciar; tentou sequestrar seus filhos, mas, mesmo fracassando, converteu-se em um inimigo visceral do tirânico Papa Doc. Estranhamente, Papa Doc foi informado por seus subordinados que Barbot havia se transformado em um cão negro. Homem inundado pelo imaginário das crendices e superstições populares do Caribe, Papa Doc acreditou na informação, e imediatamente ordenou que todos os cães negros do país fossem dilacerados.  

O governo de Papa Doc caracterizou-se por seu ostensivo nível de brutalidade e repressão. Histérico e paranoico ao extremo, Papa Doc tratava com hostilidade e frívola agressividade qualquer elemento que encarasse como uma ameaça direta ao seu governo. Indivíduo completamente destituído de humanitarismo, bondade e escrúpulos, Papa Doc reprimiu com crueldade e violência atividades de natureza comunista – algo que fazia única e exclusivamente para resguardar a simpatia e o apoio dos Estados Unidos, e não, necessariamente, por ser anticomunista convicto –, e especialmente, tentativas de golpe de estado e atentados à sua vida orquestrados pelo exército haitiano. Durante esta época, o Haiti já era considerado um dos países mais pobres do mundo, e, possivelmente, o mais miserável do ocidente. A situação apenas piorou durante a ditadura de Papa Doc. 

Papa Doc faleceu aos 64 anos, em abril de 1971, sendo substituído pelo seu filho, Baby Doc, que tinha apenas 19 anos. Inicialmente desinteressado de questões políticas, administrativas e governamentais, o aspirante a ditador delegou as atividades mais importantes aos seus subordinados, principalmente à sua mãe e a sua irmã – pessoas de sua confiança –, enquanto dedicava-se a um estilo de vida notoriamente suntuoso e flamboyant.

Em 1980, Baby Doc casou-se, no que – ao custo de 2 milhões de dólares – provavelmente foi a cerimônia mais cara e extravagante na história do país. A esposa de Baby Doc, Michèle Bennett, eventualmente arregimentaria enorme influência política no Haiti, obtendo êxito em eliminar indivíduos que considerasse uma ameaça direta ao seu poder; em determinada ocasião, conseguiu fazer com que até mesmo sua rival direta, Simone Duvalier, sua sogra e mãe de Baby Doc, fosse expulsa da ilha.

A corrupção desenfreada do governo relapso, mundano e medíocre de Baby Doc revoltou os haitianos, que, a esta altura, viviam por quase três décadas uma ditadura brutal, hostil e miserável, que trouxe grandes vantagens para a elite política, ao custo de grande exasperação, extenuação e desgaste para o restante da população. Em 1985, revoltas, rebeliões e insurreições populares – que demonstravam com franqueza o ressentimento e o descontentamento de todos os haitianos – foram deflagradas em diversas cidades do país.

Inicialmente, Baby Doc usou de diversas medidas de contingência para reprimir as revoltas populares, incluindo o uso da força. Não obstante, ele subestimou a enorme vontade da população em conduzir à insurreição até as últimas consequências. Suas medidas repressivas foram insuficientes para asfixiar a necessidade dos haitianos de libertarem-se das opressivas garras de uma tirania cruel e malévola, que se estendia há décadas. A crise humanitária internacional que o evento deflagrou levou até mesmo o governo dos Estados Unidos – que na época tinha Ronald Reagan na presidência – a solicitar à Baby Doc Duvalier que renunciasse e deixasse o Haiti.

Sem melhores alternativas, e sentindo a renitente e impiedosa fúria popular em seu encalço, a família Duvalier decidiu fugir para a Europa. A maioria dos países solicitados negou asilo político. Não obstante, eventualmente conseguiram autorização temporária para estabelecerem-se na França. Em 1990, Baby Doc e sua esposa se divorciaram.

Em 2011, no entanto, contrariando todas as probabilidades, Baby Doc retornou ao Haiti. Considerado um dos líderes políticos mais corruptos do mundo, Duvalier foi preso alguns dias depois de sua chegada, no hotel em que estava hospedado, para enfrentar a justiça sob uma série de acusações, entre elas apropriação indevida e corrupção. Não obstante, alguns meses depois, Baby Doc vivia confortavelmente, em prisão domiciliar. Duvalier morreu aos 63 anos, em outubro de 2014, em decorrência de problemas cardíacos.

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Sobre Mim

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O Ultraconservador é um reacionário cristão antissocialista, anticomunista, antimarxista e antiestatista. Um indivíduo sem medo do establishment socialdemocrata ditatorial, corrosivo e totalitário. É colaborador de periódicos (jornais e revistas) e portais eletrônicos do Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo.