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O genocídio do povo Rohingya

O genocídio do povo Rohingya

Atualmente, o governo de Myanmar, nação também chamada de Birmânia, está envolvido em uma brutal, hostil e desumana campanha institucionalizada de genocídio contra o povo Rohingya, um grupo étnico de origem indo-ariana, que historicamente habitou territórios localizados em Bangladesh, Tailândia, Paquistão e o estado de Arracão — região localizada na costa oeste de Myanmar, que faz fronteira com o Golfo de Bengala, no Oceano Índico — entre uma dezena de outros países, onde também possuem presença relevante.

Embora fossem maioria em Myanmar até pouco tempo atrás, atualmente a maior comunidade Rohingya está localizada em Bangladesh, pois a campanha de extermínio executada pelo governo de Myanmar causou um expressivo deslocamento populacional que obrigou a maioria dos Rohingya a fugir do seu território na desesperada tentativa de se salvar. A maioria acabou fugindo para o país vizinho mais próximo, que é justamente Bangladesh, cuja fronteira fica a noroeste.

Durante boa parte de sua existência, o povo Rohingya enfrentou preconceito e discriminação sistemáticos nos territórios que habitou, sendo estes profundamente institucionalizados em Myanmar. Lá, o povo Rohingya não tem direito à educação, não pode se locomover livremente pelo país, não tem direito à cidadania — o que os torna, essencialmente, um povo apátrida —, não podem ter mais do que dois filhos, e os homens são convocados quando o governo bem entende para prestar trabalhos forçados, além de sofrer com muitas outras restrições, todas de natureza severa e autoritária.

Em 2016, o governo de Myanmar começou uma atroz e violenta campanha de genocídio contra o povo Rohingya, sem precedentes históricos, com o objetivo de exterminá-los completamente. Vilarejos, comunidades e cidades habitadas por Rohingya passaram a ser atacadas, destruídas e incineradas de forma sistemática e uma matança indiscriminada — que não perdoava nem mesmo mulheres, crianças ou recém-nascidos — passou a ser executada com extrema crueldade por tropas governamentais. Estupros sistemáticos e agressão sexual nesses ataques também tornaram-se formas comuns de violência. Depois de uma trégua em janeiro de 2017, a campanha de morticínio e terror governamental voltou com crueldade e brutalidade renovadas, em agosto do mesmo ano.

O governo de Myanmar nega a ocorrência de genocídio, embora os fatos mostrem o contrário. Seus representantes não usam o termo Rohingya para se referir ao povo que tentam ardorosamente exterminar. Caindo em contradição em determinadas ocasiões, oficiais do governo que corroboram a existência de uma campanha violenta para exterminá-los afirmam que tal ação é necessária, visto que os Rohingya se reproduzem rapidamente, e em breve eles poderiam suplantar as etnias dominantes, subjugando-as assim que ficassem em maior número. A questão religiosa parece ser um problema relevante na equação. Como a maioria dos Rohingya são muçulmanos, isso provoca uma enorme insegurança entre os birmaneses — a etnia predominante —, que são majoritariamente budistas. Eles temem a possibilidade de uma revolução islâmica em seu país, caso o povo Rohingya usufrua de plena liberdade para viver em seu território e se multiplicar.

É verdade que muçulmanos são conhecidos por sua intolerância religiosa. O próprio povo Rohingya sofre com a intolerância dos seus pares. Há relatos de que aqueles que são hindus sofrem pressão dos seus conterrâneos para se converterem ao islamismo. Não obstante, isso está longe de ser um motivo plausível para justificar genocídio, especialmente contra mulheres, crianças e idosos, o que dirá violência sexual em larga escala, executada durante campanhas militares de terror e morticínio institucionalizadas. Quando o extermínio teve início, militares convocaram civis a formarem milícias e participarem das atrocidades.

Infelizmente, a deprimente situação atual do povo Rohingya tem sido pouco divulgada no ocidente. Apesar desta deplorável tragédia ter recebido alguma atenção da ONU, a comunidade internacional não deu qualquer relevância a esta catástrofe humanitária. Esta deprimente tragédia de proporções monumentais também está sendo ostensivamente negligenciada pelos grandes conglomerados midiáticos, simplesmente porque o povo Rohingya é formado por pessoas pobres e destituídas, que não possuem conexões relevantes, influência política ou contatos externos que lhes deem visibilidade. Ou seja, não são considerados importantes, portanto seu genocídio está livre para ser amplamente desprezado e ignorado. O povo Rohingya está entre as minorias mais hostilizadas e perseguidas que existem hoje no mundo.

O genocídio contra o povo Rohingya está acontecendo neste exato momento, e a comunidade internacional não está fazendo absolutamente nada para mitigá-lo; não oferece ajuda prática para aqueles que, em desespero, fogem do extermínio, e nem sequer se manifesta com palavras de solidariedade em consideração às vítimas. Não adianta nada fazer discursos eloquentes, sensíveis e graciosos sobre humanitarismo depois de assistir documentários sobre o Holocausto, quando um genocídio está acontecendo neste exato momento, e não estamos fazendo absolutamente nada para dar um fim a esta degradante e deplorável desgraça. O mundo está saturado de mortandade, aflições e injustiças. Precisamos combatê-las, ou no mínimo, divulgá-las. Uma expressiva parcela do sofrimento humano é desconhecido; é nossa responsabilidade dar voz aos que sofrem em silêncio.

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Sobre Mim

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O Ultraconservador é um reacionário cristão antissocialista, anticomunista, antimarxista e antiestatista. Um indivíduo sem medo do establishment socialdemocrata ditatorial, corrosivo e totalitário. É colaborador de periódicos (jornais e revistas) e portais eletrônicos do Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo.