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O departamento de propinas da Odebrecht

O departamento de propinas da Odebrecht

Uma das coisas mais inusitadas a ocorrer durante a Operação Lava Jato em 2016 foi a descoberta de um departamento clandestino de propinas na Odebrecht, com toda uma estrutura organizacional contábil ilícita, intrinsecamente funcional e dinâmica, destinada a realizar pagamentos para indivíduos vinculados a companhia, em sua maioria, agentes públicos governamentais "mediadores de facilidades". Envolvida em uma infindável série de irregularidades, que precisariam de anos para serem devidamente averiguadas, quantificadas e numericamente organizadas em planilhas, o conglomerado mostrou ser o verdadeiro dono do poder durante todos os governos civis desde José Sarney, em uma expansiva, oligárquica e supranacional corporatocracia, onde quem mandava, de fato, em todas as operações públicas ou privadas de grande escala em circulação, era o dinheiro. Durante os governos de Lula e Dilma Rousseff, o conglomerado foi usado como uma espécie de mediador pelo PT para subsidiar favores, conexões e projetos de poder com governos socialistas de outros países da América Latina, como a Venezuela (onde a companhia atualmente é responsável pelo processo de planejamento e execução da obra do metrô de Caracas). Tudo impreterivelmente financiado com verbas do BNDES, é claro. Mas, por mais nocivo e destrutivo que o PT tenha sido para o país durante o tempo em que esteve à frente do governo federal, sua gestão é apenas um pequeno capítulo na enorme e infindável lista de crimes executados pela Odebrecht.

A estrutura arregimentada para viabilizar um setor de propinas foi elaborada de forma pontual, enérgica, expressiva e abrangente por Marcelo Odebrecht em 2006, quando o empresário convocou Hilberto Mascarenhas Silva, funcionário de confiança que tinha em seu currículo trinta anos de serviços prestados à companhia, para ser o gerente administrativo deste "departamento" operacional. Como o faturamento da empresa estava em franca e exponencial ascensão desde o princípio da década de 2000, Marcelo Odebrecht julgou ser necessário montar um grande aparato organizacional e logístico dentro da empresa para subornar políticos e burocratas, para que estes, por sua vez, viabilizassem concessões para projetos governamentais com facilidade exclusiva, em um sistema unilateral onde o corporativismo se converteria em uma plataforma lógica de negociações. O plano, na verdade, era muito simples, e servia apenas para formalizar e gerenciar com maiores competências o que vinha sendo realizado com sigilo e sagacidade desde a era Sarney, mas que, a partir daquele momento, seria efetivado em uma escala muito maior: comprar tudo e todos - e isso incluía primariamente governos, e portanto, funcionários públicos - para dominar o mercado, acabar com a concorrência, consolidar um corporativismo cartelista, e enriquecer de forma ostensivamente obscena, garantindo, assim, o sucesso permanente da empresa. 

A Operação Lava Jato foi fundamental para elucidar, desbaratar e compreender o grande esquema de corrupção estruturado pela Odebrecht, considerado "o maior já descoberto no mundo". Empresa cujos êxitos e sucessos devem-se à sua estreita associação com sucessivos governos, a companhia converteu-se no maior exemplo de capitalismo clientelista da história do mercado nacional. Uma prova irrefutável e monumental de que a simbiose entre o setor público e a inicitiva privada será sempre tóxica, maledicente, improdutiva e nefasta. Um ingrediente lascivo para a prática da corrupção.   

A verdade é que poucas pessoas sabem mais sobre os bastidores da corrupção no Brasil do que Marcelo Odebrecht (e muitas de suas revelações, nas delações que fez, atestam isso). No que diz respeito à gestão de todos os ex-presidentes desde 1985, os reais detentores do poder sempre foram, de fato, as grandes corporações. E a Odebrecht, sem dúvida nenhuma, tendo se tornado a mais poderosa, conquistou a primazia. Por sua excelência na corrupção, por sua imoralidade financeira e, acima de tudo, por sua inescrupulosa voracidade em comprar, subornar e corromper a todos que estivessem em seu caminho.   

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Sobre Mim

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O Ultraconservador é um reacionário cristão antissocialista, anticomunista, antimarxista e antiestatista. Um indivíduo sem medo do establishment socialdemocrata ditatorial, corrosivo e totalitário. É colaborador de periódicos (jornais e revistas) e portais eletrônicos do Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo.