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Morre aos 86 anos Abimael Guzmán, líder do grupo revolucionário Sendero Luminoso

Morre aos 86 anos Abimael Guzmán, líder do grupo revolucionário Sendero Luminoso

No dia 11 de setembro, morreu aos 86 anos Abimael Guzmán — cujo nome completo era Manuel Rubén Abimael Guzmán Reynoso — indivíduo que ganhou proeminência no Peru na década de 1980 como líder do grupo revolucionário de inspiração maoísta Sendero Luminoso

Nascido em 3 de dezembro de 1934 na cidade portuária de Mollendo, no sul do Peru, Guzmán foi atraído ainda na juventude pelo comunismo, o que o fez mergulhar com profundidade em estudos e leituras sobre a idelogia marxista. Extremamente influenciado pelo intelectual José Carlos Mariátegui — o fundador do Partido Comunista Peruano —, Abimael Guzmán passou a interessar-se ainda mais por política. Na década de 1960, Guzmán tornou-se professor universitário e passou a ser extremamente ativo como militante. 

Em questão de pouco tempo, Guzmán formalizou seu envolvimento com o Partido Comunista e tornou-se um de seus membros mais ativos e radicais; entusiasmado com a ideia de uma revolução proletária, Guzmán passou a tentar persuadir outros professores a se filiarem ao partido e a desenvolverem consciência de classe. 

Em 1965, Guzmán visitou a China com sua esposa, Augusta La Torre, que também se tornaria uma revolucionária de relativa notoriedade. Entusiasmado com o socialismo chinês, Guzmán se tornou um fervoroso maoísta; as ditaduras chinesa e do Khmer Vermelho — do Camboja — passaram a ser suas grandes fontes de inspiração ideológica.  

Ainda na década de 1960, o Partido Comunista Peruano se dividiu, em função das inúmeras e irreconciliáveis diferenças ideológicas existentes entre os seus principais líderes. Uma dessas ramificações tinha Abimael Guzmán como mentor. Esse núcleo posteriormente se tornaria o embrião do movimento revolucionário que ficou conhecido como Sendero Luminoso.   

Na década de 1970, a militância de Guzmán se tornou extremamente radical. Ele chegou a ser preso em duas ocasiões distintas, na cidade de Arequipa; primeiro durante um protesto contra a ditadura militar de Juan Velasco Alvarado, e depois durante a presidência de Fernando Belaúnde, que foi deposto pelo golpe militar de 1968, mas serviu novamente como presidente de 1980 a 1985.

Foi no princípio da década de 1980, no entanto, que o Sendero Luminoso se insurgiu e começou a atuar como um movimento de guerrilha profissional, tendo por objetivo derrubar o governo e instituir uma ditadura comunista no Peru. Esse ato deflagrou na prática uma turbulenta e sanguinária guerra civil, que se estendeu por mais de uma década, deixando um rastro de aproximadamente 70 mil mortos. Durante o conflito, um outro grupo de guerrilheiros revolucionários se insurgiu e passou a protagonizar boa parte das atividades terroristas; esta facção — conhecida como Túpac Amaru — passou a rivalizar com o Sendero Luminoso por espaço, e muitas vezes os ofuscou, colocando-os em segundo plano. 

A ameaça comunista no Peru começou a recrudescer em 1990, quando Alberto Fujimori tornou-se presidente, fechou o congresso e passou a combater os movimentos revolucionários com mão de ferro. Infelizmente, atrocidades foram cometidas de ambos os lados; em determinados momentos, os guerrilheiros do Sendero Luminoso chegaram a ser vistos como os grandes herois do conflito pela população de certas regiões rurais — pelo fato de que, ocasionalmente, eles protegiam moradores e auxiliavam camponeses (mais por conveniência do que por benevolência) —, enquanto o exército e as forças especiais peruanas, do outro lado, eram tratadas com desconfiança e ceticismo, em virtude dos excessos que frequentemente cometiam contra cidadãos comuns, que podiam ser acusados de cumplicidade com os guerrilheiros comunistas. 

Abimael Guzmán foi finalmente preso em 12 de setembro de 1992, depois que agentes do DIRCOTE (Dirección contra el terrorismo) descobriram que ele estava escondido em uma residência de classe alta em Santiago de Surco. Os agentes prenderam na ocasião mais oito pessoas. A prisão envolveu intensa vigilância e árdua investigação, visto que os terroristas comunistas se ocultavam na zona urbana em localidades bastante aleatórias — muito similares aos aparelhos que os militantes comunistas utilizavam aqui no Brasil como célula ou esconderijo, durante o regime militar. 

Guzmán foi julgado pouco tempo depois; seu julgamento durou três dias e foi um dos mais midiáticos e controversos da história do Peru. Por todos os seus crimes, Abimael Guzmán foi sentenciado a prisão perpétua e enviado para cumprir sua pena em uma penitenciária naval de segurança máxima localizada na ilha de San Lorenzo

Guzmán morreu aos 86 anos em 11 de setembro. Sua saúde, no entanto, há meses estava consideravelmente frágil, muito possivelmente em função da idade avançada. A causa específica da morte não foi divulgada. 

Mesmo depois da prisão de Abimael Guzmán, o Sendero Luminoso continuou existindo, mas perdeu consideravelmente sua presença e relevância. Chegou a ressurgir de maneira significativa no princípio dos anos 2000, mas em questão de pouco tempo voltou a ser um movimento localizado, que resiste até os dias atuais em algumas regiões pontuais do Peru. Sua existência hoje é muito mais simbólica do que prática, sendo completamente incapaz de representar atualmente a ameaça nacional relevante que foi no passado.  

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Sobre Mim

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O Ultraconservador é um reacionário cristão antissocialista, anticomunista, antimarxista e antiestatista. Um indivíduo sem medo do establishment socialdemocrata ditatorial, corrosivo e totalitário. É colaborador de periódicos (jornais e revistas) e portais eletrônicos do Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo.