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Existe marxismo libertário?

Existe marxismo libertário?

Por incrível que pareça, existe uma corrente libertária de marxismo, que prega a emancipação da classe trabalhadora, alegando que ela pode lutar pelos seus direitos sem a necessidade da tutela do estado ou de um partido que represente os seus interesses. Essa corrente libertária começou depois que William Morris — britânico que se tornou famoso como poeta, ativista e pioneiro da indústria têxtil — se envolveu com o movimento dos trabalhadores na Inglaterra, na segunda metade do século 19.

Depois de fundar a Liga Socialista, ele passou a pregar com entusiasmo sobre a revolução da classe proletária para os operários britânicos, chegando a proferir discursos nas ruas. Em questão de pouco tempo, no entanto, o número de anarquistas na Liga Socialista se tornou muito superior ao número de marxistas. Invariavelmente, a fusão do ideal anarquista de liberdade com as aspirações marxistas de uma revolução proletária acabou por conceber uma nova ideologia, que unia às aspirações libertárias de uma sociedade emancipada o trabalhismo e a revolução popular das massas indigentes.   

Outra questão que, durante o período de florescimento da corrente libertária de marxismo, passou a preocupar trabalhadores e ideólogos socialistas genuinamente interessados na classe operária, foi o fato de que o marxismo tradicional — e posteriormente o marxismo-leninismo, seu mais notório desdobramento — se transformou em uma ideologia ostensivamente burocratizada, que não apenas não estava nenhum pouco interessada em ouvir as legítimas reivindicações da classe trabalhadora, como não se importava nenhum um pouco em representá-la e atender às suas necessidades e interesses.

Para esses indivíduos, ficou bem óbvio que o marxismo tradicional aglutinava indivíduos mais interessados em arregimentar poder do que lutar pela classe trabalhadora. Entre esses indivíduos, portanto, o marxismo passou a ser considerado uma ideologia de tecnocratas ambiciosos, desesperados por posições de poder. Assim, a corrente libertária do marxismo se afastou bastante do socialismo tradicional, visto que salientava virtudes como voluntarismo e autonomia dos trabalhadores, de maneira a não deixá-los dependentes de burocratas com tendências sociopatas, que poderiam estar mais interessados no poder político e partidário do que na revolução proletária.  

Com a ascensão do marxismo tradicional, no entanto, o marxismo libertário foi ficando cada vez mais marginalizado, embora tenha tido uma presença relativamente relevante no cenário da política britânica da segunda metade do século 20, através de um pequeno partido chamado Solidariedade. Seus membros eram basicamente trotskystas anti-leninistas, que salientavam a importância de elementos organizacionais comunitários — como o autonomismo —, nesse caso se aproximando muito do comunismo de conselho. Grupos dessa natureza lutavam pela autonomia dos trabalhadores e pelo direito dos mesmos de tomarem as suas próprias decisões, sendo assim independentes das burocracias centrais de departamentos de estado e de partidos políticos. Durante muito tempo, difundiram suas ideias através de um períódico de mesmo nome.  

Em um país como o Brasil, o marxismo libertário permanece sendo altamente desconhecido. Não obstante, em virtude do amor natural do brasileiro pelo estado, é improvável que doutrinas anti-estatistas e pró-liberdade consigam ganhar qualquer tipo de projeção, visto que somos um país bastante dependente da burocracia estatal. No Brasil, o medo patológico do brasileiro pela liberdade só é superado pela sua eterna devoção pelo estado; uma condição que, infelizmente, não irá desaparecer tão cedo.

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Sobre Mim

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O Ultraconservador é um reacionário cristão antissocialista, anticomunista, antimarxista e antiestatista. Um indivíduo sem medo do establishment socialdemocrata ditatorial, corrosivo e totalitário. É colaborador de periódicos (jornais e revistas) e portais eletrônicos do Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo.