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É verdade que o "verdadeiro comunismo" nunca existiu?

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Não raro ouvimos de simpatizantes do comunismo a velha e hilariante desculpa de que a União Soviética  stalinista não representou o verdadeiro comunismo, nem a China de Mao Tsé-tung, nem o Camboja de Pol Pot, nem a Cuba de Fidel Castro, e por aí segue. A grande maioria não hesita em afirmar que todas as experiências comunistas que aconteceram desde a Revolução Bolchevique até hoje não representam aquilo que consideram ser o "verdadeiro" comunismo.

Mas qual é a explicação racional para isso?

Devemos levar em consideração o fato de que a maioria dos indivíduos que pronuncia este tipo de bobagem está impregnado de literatura teórica marxista. Em decorrência de uma corrosiva lavagem cerebral que dissolveu completamente suas capacidades cognitivas, indivíduos dessa estirpe, por incrível que pareça, realmente acreditam nas fantasias que leem. Portanto, é muito difícil dissuadi-los com base em argumentações lógicas e racionais. 

Se formos levar em consideração a teoria, então, não, o verdadeiro comunismo nunca existiu. Todos os países que se declaram comunistas nunca saíram do estágio socialista. O comunismo seria o ápice, o idealizado apogeu utópico de uma sociedade socialista, cuja finalidade última seria a dissolução — e, portanto, a inexistência — do estado. Em uma sociedade verdadeiramente comunista, o estado não deveria existir. Algo que jamais poderia ocorrer por uma perspectiva coletivista, por razões óbvias, para quem é inteligente. Indivíduos que detém o poder em uma sociedade socialista — por exemplo, o ditador e seus asseclas —, não irão simplesmente abdicar voluntariamente do enorme poder que usufruem, para tornarem-se cidadãos comuns, destituídos de benefícios, poder e privilégios, em uma sociedade sem estado, classes e sem hierarquia. Tampouco depois de haverem experimentado ilimitado poder.  

Vamos pegar como exemplo o atual ditador da Coréia do Norte, Kim Jong-un. Sendo o regente supremo do país, assim como o seu pai e o seu avô antes dele, ele não irá dissolver o estado, declarar que tudo é de todos, e renunciar a todo o poder e a todos os privilégios que ele e seus associados diretos usufruem, para tornar-se um cidadão comum, completamente destituído de poder, notoriedade e relevância, tendo que ganhar a vida de uma forma ordinária e comum, trabalhando, como todo mundo, sem ter empregados e serviçais que o sirvam o tempo todo, como há muito tempo ele está habituado. Nenhum ditador socialista jamais fez isso, e nenhum ditador socialista jamais o fará. Kim Jong-un nunca trabalhou em sua vida — e, portanto, provavelmente nem saberia por onde começar —, tendo vivido sempre em berço esplêndido, desde que nasceu, tendo sido educado em um colégio interno na Suíça durante a sua infância e adolescência, sob uma identidade falsa.

Pense nas enormes implicações em dissolver o estado, e passar para a etapa seguinte, a do comunismo: isto iria afetar enormemente toda a estrutura social do país, especialmente quem trabalha para o governo, o que constitui parte expressiva da sociedade norte-coreana. Sem um aparato de coerção, os habitantes da Coreia do Norte teriam sua liberdade de volta. Alguns certamente escolheriam deixar o país, em busca de melhores condições de vida em outros lugares, já que a Coreia do Norte, essencialmente agrária e pouco desenvolvida, é muito pobre e rudimentar. Milhares já o fizeram, e o fazem continuamente, porém clandestinamente, pois fugir do país representa um grande risco. Outros indivíduos, saturados de ressentimentos, poderiam querer se vingar do ditador e de oficiais do governo ligados ao aparato de repressão, o que permanece sendo um forte motivo para o ditador não ter vontade alguma em dissolver o estado, pois estaria colocando a sua segurança em risco.

Sem o estado e sua ideologia para impingir à força aspectos comunistas na sociedade, os cidadãos poderiam se sentir livres para regressar ao capitalismo, infundindo valores e elementos capitalistas em uma sociedade que outrora fora rigidamente comunista. Poderiam até mesmo importar diversos aspectos através de intercâmbio comercial e cultural com indivíduos de outros países (como já o fazem atualmente, porém de forma discreta, através de DVD's contrabandeados clandestinamente). Quem iria eventualmente restringir esta regressão ao capitalismo? Se não houvesse um controle — e para isso, é necessário que exista um estado — a revolução socialista iria retroceder até eventualmente desaparecer, ao invés de avançar em direção ao comunismo pleno. Portanto, tudo o que teria sido realizado até então teria sido em vão.

Isto nos mostra, efetivamente, uma das deficiências mais gritantes da ideologia marxista. A primeira etapa para o estabelecimento do comunismo, o socialismo, para existir, tem que contar com um estado forte, que terá de ser, necessariamente, restritivo, coercitivo e ditatorial, para manter os cidadãos sob fervoroso controle, perfeitamente integrados à revolução. E, para continuar existindo, exigirá, impreterivelmente, a continuidade do estado; portanto, jamais poderá avançar rumo à etapa comunista. Caso contrário, a revolução estaria fadada a regredir, e, eventualmente, desaparecer. Afinal, conforme os cidadãos conquistassem a sua liberdade, com a progressiva — ou mesmo imediata— dissolução do estado, a sociedade invariavelmente retornaria ao sistema de livre mercado, que é natural e inerente a seres humanos livres. Portanto, se tornaria invariavelmente capitalista, ao invés de avançar para o comunismo.  

Com o estabelecimento do comunismo — e portanto, com a dissolução do estado —, outras questões importantes devem ser abordadas nesta especulação. Por exemplo: qual seria o destino das armas nucleares que a Coréia do Norte vem armazenando, e com os quais realiza testes nucleares regularmente — tendo inclusive violado o espaço aéreo e marítimo da Coreia do Sul e do Japão inúmeras vezes —, o que em diversas ocasiões preocupou sobremaneira as autoridades e os habitantes destes países? Sem um estado, tecnicamente, não existiriam mais inimigos, internos ou externos. Portanto, qual seria o destino de tantos armamentos militares? A população ficaria livre para apossar-se deles, como bem quisesse? Isso ainda daria margem para outras ameaças, especialmente internas. E se todo este arsenal de armas, ou a maior parte dele, por ventura fosse adquirido por alguém com pretensões ditatoriais, querendo aproveitar-se de todo esse aparato para coagir a população à força e estabelecer a sua própria ditadura? 

Indivíduos que acreditam ou divulgam utopias infantis como comunismo esquecem que a política, na verdade — em especial ideologias de caráter tão pernicioso, nocivo e brutal como o marxismo — é uma plataforma para o poder. A política nada mais é do que o desejo de dominar e ter autoridade sobre outras pessoas. Sendo assim, a política naturalmente atrai psicopatas, indivíduos ávidos por poder e controle. Uma vez que estes individuos conquistam o poder, só sairão de lá quando morrerem, ou se forem escorraçados à força.

Mao Tsé-tung deixou de ser o ditador da China apenas quando morreu, em 1976, aos 82 anos, depois de quase vinte e seis anos no poder. Fidel Castro permaneceu como o regente máximo de Cuba por 49 anos, de 1959, quando tomou o poder à força, até afastar-se em 2008, em decorrência de sua idade avançada e problemas de saúde, quando seu irmão Raúl Castro assumiu. Pol Pot, o ditador comunista do Camboja, ficou apenas quatro anos no poder, mas isso porque vivenciou uma época em que o Camboja passava por um período de recorrente e crônica instabilidade política, nos quais governos eram derrubados e instaurados em rápida sucessão, usufruindo de efêmeros períodos de duração. Mesmo assim, isso não impediu seu regime de ser um dos mais brutais e aflitivos na história do sudeste asiático, tendo exterminado em apenas quatro anos aproximadamente um quarto da população. O ditador comunista Nicolae Ceaușescu governou a Romênia com brutalidade por vinte e quatro anos, de 1965 a 1989, até ser deposto por uma revolução popular, deflagrada com o objetivo de suplantar o seu sórdido e agressivo regime ditatorial. Ceaușescu e sua esposa, Elena, foram fuzilados em 25 de dezembro de 1989, em uma execução transmitida em rede nacional. 

Ditadores não irão simplesmente renunciar ao poder absoluto do qual usufruem, em nome de uma utopia, especialmente se irão perder privilégios, beneficios, autoridade legítima e poder sobre terceiros. Nenhum ditador comunista na história fez isso, tampouco algum dia fará. Portanto, temos razões suficientes para acreditar que Kim Jong-un, o ditador da Coreia do Norte, não irá dissolver o estado, para concluir o estágio socialista da revolução, e passar para a etapa comunista. 

A teoria marxista, de expandir o estado para eventualmente aboli-lo, não faz o menor sentido. Além de irracional, apela apenas para pessoas incapazes de assimilar sua falta de lógica. Marx afirmava que o estado seria governado pelas massas de cidadãos comuns — a classe proletária — e que isto eventualmente faria com que tudo se tornasse de todos. Portanto, assim, o estado "deixaria de existir". Mas não há uma lógica nesta doutrina. Para isto, a sociedade não poderia ser organizada em classes ou hierarquias; não poderia nem mesmo haver uma séria divisão de funções. Todos teriam de saber fazer um pouco de tudo. Mas como se organizariam na alternância de funções? Seria, portanto, uma sociedade altamente desorganizada. Marx propunha, com a expansão do estado, exatamente o contrário. Uma sociedade que se tornaria inextricavelmente organizada, e que invariavelmente se tornaria aquilo que se tornou: uma sociedade dividida em diversos segmentos, hierarquias de comando e classes sociais, com um grande número de distinções e castas, o que de fato se torna inevitável a nações que se declaram comunistas, como a Coréia do Norte, que possui uma inquebrantável estratificação social rígida, autoritária e proeminente, com um meticuloso nível de organização governamental. Por exemplo, apenas os indivíduos incondicionalmente leais ao partido e a Dinastia Kim podem residir nas áreas mais abastadas da capital, Pyongyang.  

Para a inexistência do estado, o movimento a ser feito seria exatamente o contrário: deveria se propor a supressão do estado através de um processo gradual, que iria reduzir o número de ministérios, departamentos e funcionários, bem como os seus respectivos poderes, de forma contínua, até o estado, eventualmente, desintegrar-se. A progressiva dissolução do estado seria muito mais coerente do que a sua expansão; afinal, a expansão do estado apenas aumenta o seu poder sobre a população, e a subsequente segregação da sociedade em castas. Ao propor a expansão do estado, e mencionar de uma forma muito vaga como o estado deixaria de existir, Marx deixou lacunas em sua teoria que não apenas expõem falhas dramáticas em seu pensamento, mas inconsistências estruturais e ideológicas tão severas, que é quase impossível acreditar que existem pessoas dispostas a levar suas teorias à sério. 

Mas então, supondo que tal utopia pudesse ser implementada na prática, muitas outras questões surgiriam. Por exemplo, na ocorrência de crimes, quem assumiria as funções da polícia? Claro, uma indagação desta natureza é totalmente "irrelevante", afinal, o comunismo não reconhece a existência do mal. Na Coreia do Norte, não existem departamentos de polícia; não há "necessidade", afinal, não existem crimes no "paraíso". Comunistas não consideram crimes uma parte natural, indissociável, de uma sociedade constituída por seres humanos imperfeitos, mas uma decrepitude exclusiva de sociedades capitalistas, das quais eles estão "livres".

A negação do mal — e de falhas inerentes a natureza humana — é extremamente comum no comunismo. Quando, na extinta União Soviética, investigadores e policiais, no início dos anos 1980, comprovaram que diversas mortes ocorridas na região de Rostov Oblast eram o possível resultado de um assassino serial em atividade na área —, o que se mostraria correto, depois de inúmeras investigações conclusivas, os assassinatos seriam posteriormente atribuídos a Andrei Chikatilo, que ganharia a sinistra, porém merecida alcunha de "Estripador de Rostov", responsável por matar cinquenta e seis mulheres e crianças entre 1978 e 1990 — inicialmente os dirigentes soviéticos negaram categoricamente a possibilidade, afirmando que assassinos em série eram um decadente fenômeno do ocidente, e que não existia nada parecido na União Soviética. Eventualmente, no entanto, com a brutalidade dos crimes perpetrados e o número de cadáveres aumentando, os fatos bateram à porta, e a classe governamental foi obrigada a aceitar a realidade. 

De qualquer maneira, o comunismo não foi criado para ter coerência, coesão ou consistência. O comunismo teórico não passa de uma fantasia. O comunismo na prática, por outro lado, é uma plataforma para o poder. Na teoria, fala em justiça e igualdade para seduzir inocentes úteis, que servirão de massa de manobra para o indivíduo — ou grupos de individuos — que estão ávidos por poder político. Ingênuos que acreditam na causa lutarão por ela, para colocar no poder psicopatas famigerados que serão os seus próprios algozes, dirigentes autoritários que os escravizarão e, por fim, os matarão. 

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Sobre Mim

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O Ultraconservador é um reacionário cristão antissocialista, anticomunista, antimarxista e antiestatista. Um indivíduo sem medo do establishment socialdemocrata ditatorial, corrosivo e totalitário. É colaborador de periódicos (jornais e revistas) e portais eletrônicos do Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo.