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Augusto Pinochet e o regime militar chileno

Augusto Pinochet e o regime militar chileno

Em 1973, o general Augusto Pinochet — cujo nome completo era Augusto José Ramón Pinochet Ugarte — tornou-se ditador do Chile em função de um golpe militar, executado com o objetivo de deter o avanço do comunismo no país sul-americano. Evidentemente, isto ocorreu em larga medida por influência dos Estados Unidos. Naquele tempo, o mundo vivia o ápice da Guerra Fria; Estados Unidos e União Soviética disputavam o exercício da influência sobre diversos países do mundo, e os Estados Unidos buscava, logicamente, barrar o avanço do comunismo, usando para isso todos os artifícios e ferramentas que estivessem à sua disposição.

Durante este período, Cuba — estado satélite da URSS — buscava influenciar politicamente todos os países da América Latina, servindo como ponta-de-lança da expansão do socialismo no continente. E não demorou muito tempo para que o ditador Fidel Castro e o então presidente chileno Salvador Allende se tornassem aliados.  

O ditador cubano Fidel Castro e o presidente do Chile Salvador Allende

O ditador cubano Fidel Castro e o então presidente do Chile Salvador Allende

Por volta de 1972, a economia chilena estava um caos. Greves e inflação dilaceravam o país, e Allende continuava com suas políticas de expropriações, estatizações e nacionalizações, que progressivamente pioravam a situação. Isso até a economia ameaçar entrar em um completo e total colapso. 

É bem verdade que a CIA começou a vigiar Allende de perto desde que ele iniciou o seu mandato, e tentou influenciar os resultados na eleição de 1970, que acabou sendo decidida pelo Congresso Nacional, já que nenhum dos candidatos ganhou com maioria dos votos. Allende havia ganhado de Jorge Alessandri por uma pequena margem, pouco superior a 1%.

Quando Allende começou o seu mandato presidencial, inaugurou o que ele chamou de "Caminho chileno para o socialismo", o que incluía, basicamente, a estatização de todas as indústrias consideradas estratégicas para o Chile, sobretudo o cobre, o seu maior commodity. Na educação, ele daria continuidade às políticas do seu antecessor, Eduardo Frei Montalva.

Não obstante, os problemas típicos do socialismo não tardaram em aparecer. Recessão, inflação e as constantes greves que se seguiram às políticas de estatização da economia ameaçaram jogar o Chile no precipício de um colapso sem precedentes. As incapacidades políticas e administrativas de Allende provaram ser seus maiores inimigos. Assustado, Allende escrevia cartas a Fidel Castro, solicitando conselhos. O ditador cubano sugeriu a Allende que se esforçasse em manter uma boa relação com o exército — o que Allende foi capaz de realizar parcialmente; o Comandante-em-chefe do exército chileno, Carlos Prats, suprimiu com êxito a primeira tentativa de insurgência militar contra o seu governo —,  mas paralelamente formasse esquadrões e milícias para se manter no poder à força, se necessário fosse, prevenindo-se do risco de deposição. 

Sem opções ou alternativas mais razoáveis, com o país no precipício de uma conflagração política e econômica de proporções continentais, as forças militares do Chile — exército, marinha, aeronáutica e carabineros, a polícia nacional chilena — orquestraram um golpe para tomar o poder, executado a 11 de setembro de 1973. 

Os militares haviam tentado tomar o poder pouco mais de dois meses antes, em 29 de junho, durante um malfadado golpe de estado que ficou conhecido como Tanquetazo. Esta primeira tentativa de derrubar o governo de Allende, no entanto, liderada pelo coronel Roberto Federico Souper, foi rapidamente desbaratada por tropas legalistas, lideradas pelo notório Comandante-em-chefe do exército chileno, Carlos Prats, que fugiria para Argentina depois dos militares obterem êxito em tomar o poder, na tentativa seguinte. Aproximadamente um ano depois, em setembro de 1974, ele e sua esposa seriam assassinados, vítimas da explosão de um carro-bomba. 

Ao contrário do que algumas versões da história contam, Augusto Pinochet não queria tomar parte no golpe militar. O general aceitou de maneira relutante — juntando-se ao grupo de insurgentes relativamente tarde —, e posteriormente, sua biografia seria enfeitada com detalhes heroicos e virtuosos, que na verdade eram completamente inverossímeis. 

Os militares iniciaram o golpe explodindo o palácio de La Moneda. Lá, Salvador Allende cometeu suicídio, algo que os militares divulgaram publicamente mais tarde. Evidentemente, em decorrência do que estava em andamento — um golpe de estado — inicialmente acreditaram que ele teria sido assassinado. A verdade, no entanto, é que diversas investigações independentes realizadas posteriormente, tanto da parte do governo chileno como de particulares, uma delas solicitada pela própria família de Allende, chegaram todas à mesma conclusão: a de que Salvador Allende cometeu suicídio. Seu corpo chegou a ser exumado em 2011. Estudos de peritos com equipamentos de tecnologia forense confirmaram que Allende cometeu suicídio com um rifle AK-47.

Pouco tempo depois de tomarem o poder, os militares formaram uma junta para definir o que fariam, e o que estabeleceriam como diretrizes e prioridades para o novo governo, formado por eles. A liderança da junta de governo militar estabeleceu-se como um quarteto, composto pelo comandante de cada uma das forças armadas: o general Augusto Pinochet, do exército, o general Gustavo Leigh, da força aérea, o almirante José Merino, da marinha e o general César Mendoza, dos carabineros. Inicialmente, Pinochet assumiu a liderança da junta, por representar a facção mais antiga das forças armadas, o exército. O comando da junta de governo, no entanto, deveria ser rotativo, sendo periodicamente transferido para outro membro depois de um tempo determinado. Pinochet, no entanto, rapidamente usou sua influência para acabar com qualquer sistema de freios e contrapesos sobre o seu poder, estabelecendo sua liderança na junta governamental, que se estenderia até 1981.   

Inicialmente, acreditou-se que os militares iriam apenas "limpar a casa", por assim dizer, e entregar o governo para o Partido Cristão Democrata, de Frei Montalva, que havia sido o presidente antes de Allende. Mas isso não aconteceria. Pouco mais de um ano depois do golpe, em dezembro de 1974, Pinochet seria declarado presidente do Chile pela junta da qual era o líder. 

Ao assumir o poder, o governo militar se caracterizaria basicamente por três elementos principais: a supressão de todos os partidos e atividades políticas — especialmente socialistas e comunistas — a perseguição implacável de opositores e dissidentes políticos e o estabelecimento de medidas liberalizantes na economia.

Na economia, o recém-instaurado governo recebeu auxílio de economistas da escola neoliberal de Chicago, e seus pupilos ficaram conhecidos como Chicago Boys. Foram eles que deram o impulso inicial para o Chile se tornar um dos países mais economicamente livres e desenvolvidos do mundo — com privatizações e medidas liberalizantes na economia, que facilitaram o empreendedorismo e a atração de capital estrangeiro, o que por conseguinte fomentou enorme geração de riquezas e prosperidade — indo na contramão das políticas estatizantes de Allende, as principais responsáveis pela estagnação econômica.    

Mas toda a prosperidade econômica que consagraria o Chile com um nível formidável de progresso foi análoga à supressão de ideias políticas que dificultavam o desenvolvimento da nação. Por isso, o governo baniu completamente atividades e partidos políticos de esquerda, incinerou literatura marxista, e perseguiu opositores políticos não apenas em território nacional, mas também em diversas missões no exterior, muitas vezes em parceria com serviços de inteligência de outros países, como a CIA. O número de mortos durante o governo militar no Chile — relativamente modesto para uma ditadura — é estimado em 3095, enquanto o de pessoas institucionalizadas à força em campos de internamento pode ter sido superior a 80.000. Sessões de tortura promovidas pelo estado contra ativistas de esquerda e militantes comunistas, bem como desaparecimentos, também foram recorrentes durante este período. 

Augusto Pinochet permaneceu durante todo o tempo da ditadura militar como a autoridade máxima da nação. Em 1988, foi realizado um plebiscito, no qual se decidiria se ele deveria permanecer por mais oito anos como o líder político do país. O não ganhou, com 56% dos votos. No ano seguinte, portanto, foram realizadas as eleições para presidente, iniciando o processo de redemocratização do Chile. O vencedor das eleições foi Patricio Aylwin, que serviria como presidente de 1990 a 1994. 

Pinochet permaneceria como comandante-em-chefe do exército chileno até 1998. Depois disso, se mudaria para Londres, onde seria preso por violações dos direitos humanos, baseado no princípio da jurisdição universal. O ex-mandatário chileno então seria mantido em prisão domiciliar por aproximadamente um ano e meio, até ser autorizado a retornar ao Chile, onde seria recebido como um herói. 

Seu retorno ao Chile, no entanto, apenas complicaria a sua vida e revelaria segredos sórdidos à seu respeito que com toda a certeza ele preferiria que tivessem permanecido ocultos indefinidamente. Pinochet — que de fato não era nenhum santo — enfrentaria inúmeros processos relacionados ao período em que ele foi o mandatário da nação, no qual reviraram sua vida pública e particular ao extremo, efetuando descobertas comprometedoras, como contas milionárias em paraísos fiscais, negócios escusos, sonegação de impostos e  execuções extrajudiciais realizadas durante e após a tomada de poder. Pinochet seria rapidamente destituído da imunidade parlamentar da qual usufruía, e passaria por longos e exasperantes processos judiciais, que ainda estavam em andamento quando ele morreu, aos 91 anos, em 10 de dezembro de 2006.  

Pinochet — que já usufruía uma reputação polêmica — permaneceria uma figura altamente controversa no Chile, mesmo após a sua morte. Seu funeral foi acompanhado por mais de 60.000 pessoas, entre admiradores, entusiastas e leais apoiadores. Seu falecimento, no entanto, foi muito celebrado pelos seus detratores.

Hoje existe, ao menos entre uma expressiva parcela da população chilena, o entendimento de que a ditadura pinochetista foi um mal necessário para conter o avanço do comunismo no país, que, evidentemente, instauraria um regime muito pior. Ainda que de fato tenha havido repressão — repressão esta, que matou cidadão inocentes — na questão econômica, o país se desenvolveu como nenhum outro da América Latina, tornando-se o único que efetivamente aproximou-se mais do genuíno liberalismo, em toda a região. O nível de prosperidade e progresso que o Chile conquistou neste período, e continua capitaneando até hoje, nunca foi atingido pelos seus pares latino-americanos. 

Isto, evidentemente, não teria acontecido se uma ditadura comunista tivesse sido implantada com sucesso por Salvador Allende, o que aparentemente seria atingido através da implementação de medidas políticas gradualistas, algo muito similar ao que Jango tentara fazer com as reformas de base no Brasil, antes de ser igualmente deposto por um golpe militar, em circunstâncias muito similares, quase dez anos antes. Caso uma ditadura socialista tivesse logrado êxito, o Chile teria se tornado uma espécie de sucursal sul-americana de Cuba, ou seja, apenas mais um país socialista onde a fome, a miséria, o subdesenvolvimento e a pobreza são as características mais proeminentes. Ditaduras de direita podem ser bem agressivas e repressivas, elas tiram a liberdade política dos cidadãos, mas tem o benefício de os resguardar de um regime muito pior, uma ditadura de esquerda, que acaba com as liberdades políticas, religiosas e econômicas de todos, com exceção, é claro, da classe dirigente.

A ditadura militar chilena — bem como todas as demais ditaduras e regimes militares que foram estabelecidos na América Latina neste período — deve ser inserida dentro do contexto da Guerra Fria. No caso, todos os governos militares da região tiveram apoio direto e indireto, tanto logístico quanto ideológico, dos Estados Unidos, cuja intervenção nos acontecimentos políticos de diversos países latino-americanos sem dúvida foi necessária para deter o avanço do comunismo no continente. 

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Sobre Mim

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O Ultraconservador é um reacionário cristão antissocialista, anticomunista, antimarxista e antiestatista. Um indivíduo sem medo do establishment socialdemocrata ditatorial, corrosivo e totalitário. É colaborador de periódicos (jornais e revistas) e portais eletrônicos do Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo.